Cinema

Publicado em abril 16th, 2018 | Por Bianca Bicalho

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Um Lugar Silencioso e a Comunicação

Entre as estréias do mês de Abril, Um Lugar Silencioso é o filme que mais surpreende performando originalidade e oscilando entre as categorias terror e suspense. Se você ainda não assistiu evite esse post e arranje um espaço na sua agenda para experienciar o trabalho muito bem feito pela equipe, elenco e diretor, durante essa uma hora e meia de pura tensão, caso contrário, siga em frente e venha conferir de forma detalhada as peculiaridades dessa produção.

Temos que concordar que com os adventos da tecnologia fica difícil sair do sofá de casa para assistir um filme no cinema apenas pelo prazer do entreterimento. Além de estar caro, as opções são preenchidas em sua maioria por filmes hollywoodianos sustentados apenas por roteiro e efeitos visuais. Entretanto, Um Lugar Silencioso é excessão e entra na minha categoria de “Filmes que valem a pena sair de casa para assistir”, uma vez que a sinopse, essa que apresenta um mundo onde as pessoas não podem fazer barulho, vende a realidade do filme como quase impossível. A experiência cinematográfica mudou muito com o avanço do cinema para dentro de casa, mas, a fim de conseguir escutar e se emocionar com Um Lugar Silencioso, você precisará da qualidade de uma sala de cinema. O isolamento acústico é essencial para que a ilusão do filme seja construída e, ao não ser que você viva num bunker, assistir o filme de verdade em casa não é uma opção.

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Depois de esclarecermos o quão essencial é poder assistir esse filme numa sala de cinema, podemos destrinchar melhor como o som é o personagem principal dessa trama e a problemática de como essa mídia é sempre uma ferramenta em segundo plano. Em Um Lugar Silencioso explora-se um novo universo de micro sons, barulhos e frequências. Essas as quais não damos muita atenção no dia-a-dia, como o som de nossos passos, nossa respiração ou do vento passando por nosso cabelo. Através disso desenvolve a magia que existe por trás das delicadezas e cuidados que cada ação deve levar consigo. Além de ser um mundo mudo, também é um mundo mais lento uma vez que paciência e atenção devem andar anexados a qualquer forma de agir. A atmosfera além de quieta, é densa e tensionda. A realidade da família que acompanhamos torna-se assim muito mais impossível e distinta da nossa. Comunicando-se através de sussurros e linguagem de sinais, os quatro personagens são obrigados a desenvolver novas formas de demonstrar emoção exigindo ainda mais dos atores e atrizes expressões que falam por si só não apenas para o espectador do filme, mas também para os outros personagens da trama.

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Essas questões nos demonstram aos poucos que dependemos da liberdade sonora para além de poder produzir, trabalhar, mas para podermos nos comunicar, nos relacionar. E essa reflexão pode ser conferida na cena em que Blunt e Krasinski dançam em passos contidos com a ajuda de um fone de ouvido. A questão que ecoa aqui é se palavras são realmente necessárias para traduzir sentimentos, uma vez que temos  cinco sentidos para explorar durante processo. O filme todo nos questiona sobre isso e nos responde finalmente com o grito gutural de Krasinski no penúltimo ponto de virada. A fim de salvar os próprios filhos ele se dilacera em som e gestos, não em palavras. Ele não precisa de nenhum discurso durante seu sacrifício.

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Há muito tempo os homens estão acostumados a depender dos códigos para criar relações e manter seus negócios mas, através de Um Lugar Silencioso e seu futuro pós-apocalíptico percebemos que o focar obssesivo acima das palavras e o subjulgar dos outros sentidos é quase inútil. Sendo um filme que se apoia de um discurso, por ter sido produzido acima de um roteiro, cheio de palavras, essa conclusão poderia se contradizer, mas o que ele tenta fazer é funcionar em cima do que o público está acostumado e divagar nessa transição para promover o questionamento das formas de comunicação. Em outras palavras, ele promove de forma delicada uma suberversão sobre a própria mídia.

É difícil analisar a produção cinematográfica uma vez que 90% dela depende do discurso e da narrativa para funcionar e fazer sentido. Um Lugar Silencioso é um filme que vale a pena ir ver no cinema não somente por sua exploração sonora, mas por questionar, na medida do possível, como estamos nos comunicando e subjulgando nossas possibilidades de sentido.

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Sobre o Autor

Historiadora da arte em formação pela Universidade Federal de São Paulo, formada em Cinema/Tv pelo Centro Audiovisual de São Bernardo, estudante de desenho pela Quanta Academia de Artes, viciada em astrologia e bolinho de chuva. @dramaticqueenya em todas as redes sociais.



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