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Publicado em janeiro 10th, 2017 | Por Marcio R. Castro

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Uma visão Star Wars

Acabo de ver e rever, numa tacada só, os dois mais recentes filmes do cânone de Star Wars. A sensação geral foi de satisfação e alívio. De forma ampla, tanto “O Despertar da Força” quanto “Rogue One” agradaram. Iria mais longe – nada mais apropriado, já que estamos falando de uma galáxia muito, muito distante: ambos resgataram a saga, exorcizando a condução e, principalmente, a execução problemática de George Lucas (sempre lembrando que devemos a criação de todo esse universo a ele, é claro).

Boas escolhas de atores, direções coesas, atuações convincentes, diálogos e momentos dramáticos bem elaborados, efeitos e tomadas de tirar o fôlego e batalhas aéreas e terrestres empolgantes são alguns pontos a se destacar. Além disso, o festival de referências e homenagens, a aparição de personagens icônicos e até mesmo algumas escolhas de takes (como os pilotos dos caças sendo vistos de frente durante as batalhas e os soldados em primeiro plano num posto de observação enquanto uma nave rasga o céu ao fundo) fizeram a festa dos fãs da velha guarda. Percebe-se claramente que os realizadores sabiam o que estavam fazendo.

Porém, flores nem tudo são, como diria Mestre Yoda. É hora de deixar de ser bonzinho e aderir ao lado negro da crítica (negro mesmo, nada de sombrio. Às vezes ainda me pego falando Guerra nas Estrelas…). Os dois filmes têm alguns problemas, ainda que o spin-off tenha menos.

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O que mais me incomodou em “Rogue One” foi o fato de tantos personagens interessantes terem sido pouco ou nada trabalhados. A apresentação e os momentos dramáticos de quase todos foram inexplicavelmente breves, rasos e superficiais.

Quer um exemplo? A relação entre Jyn Erso (Felicity Jones) e Saw Gerrera (Forest Whitaker). O homem salvou a vida da pequena, a criou como pai e mentor, a treinou para os dias difíceis e até mesmo a abandonou para protegê-la. Nada disso é mostrado, nem em flashbacks ou coisa que o valha. E toda essa carga emocional se “resolve” em um reencontro sem graça e uma conversa insípida, rápidos como a Millennium Falcon no hiperespaço.

O piloto de cargas Bohdi Rook (Riz Ahmed) é outro personagem que podia ter sido melhor explorado. Um ou dois momentos dele atuando na estrutura do Império, angustiado, ou uma cena simples com Gale Erso (Mads Mikkelsen), mostrando medo e cumplicidade, bastariam.

Esses são apenas dois casos, outros também acabaram negligenciados. Não é de hoje que, com medo de aumentar a obra em alguns míseros minutos e prejudicar o “ritmo” do filme, os estúdios costumam passar a tesoura na edição. O resultado é geralmente danoso (“Batman Vs Superman” que o diga). A construção do arco dos personagens se perde no caminho, junto com a intensidade e a amarração da história. Depois, chegam as tais versões estendidas para tentar corrigir a questão – e, claro, faturar mais algumas verdinhas.

Já com “O Despertar da Força” tenho mais ressalvas. A primeira e mais gritante: é muito mais do mesmo. Tudo bem que não é porque os dois comandantes máximos do Império morreram que tudo estaria resolvido, já que muito do aparato bélico e político se manteria sob o comando de outros tiranetes. Gostei bastante dessa visão, menos simplista. As coisas não se resolvem num passe de mágica.

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No entanto, um forte abalo seria sentido na máquina dos dominadores. Brigas internas por poder, sistemas antes controlados em revolta, deserções em massa… O equilíbrio de forças teria, pelo menos, se modificado.

Mas parece que absolutamente nada mudou, a não ser a nomenclatura do mal. Sai Império Galáctico, entra Primeira Ordem. A ameaça, o clima de medo, a tensão: é tudo muito igual. Nada sugere uma mudança maior na balança do conflito.

Aliás, o “uma coisa pela outra” não para por aí. Antes Aliança Rebelde, agora Resistência. Antes uma arma que destrói mundos inteiros, agora uma arma que destrói mundos inteiros um tanto maior. Antes um pequeno robô carismático e intrépido, agora um pequeno robô carismático e intrépido em forma de bola. Antes um vilão aterrorizante de roupa e máscara pretas e fala metálica, agora, adivinhem só, um vilão aterrorizante de roupa e máscara pretas e fala metálica. A escolha me parece óbvia: fizeram uma quase versão de “Uma Nova Esperança” para a geração atual, espelhando muitos elementos do filme de 1977. Sinceramente, não era necessário.

Outros pontos menores também ficaram um tanto dissonantes. Por exemplo: alguém já treinado e poderoso como Kylo Ren (Adam Driver) – não me lembro de ter visto um sith ou jedi ser capaz de parar um disparo laser com a força! – não seria derrotado num duelo de sabres de luz por Rey (Daisy Ridley), que sequer havia sonhado em ter em mãos numa arma como essa. Para ficar aceitável, a vitória da moça só poderia ter ocorrido pelo uso da força em estado bruto, já que o poder que aflorava na promissora jovem se mostrava extraordinário e surpreendente.

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Além disso, o ótimo personagem Finn (John Boyega), verdadeiro e envolvente, foi muito utilizado para o chamado alívio cômico da trama. O expediente pode e deve ser explorado, mas não em demasia. Foi o que aconteceu, ainda mais por que outros também acumularam essa função, como o droide-bolinha BB-8, Chewbacca e Hans Solo (Harisson Ford).

Porém, entre erros e acertos, volto a enfatizar: o saldo foi bastante positivo, principalmente em “Rogue One”. Talvez as histórias derivadas que seguem paralelas ao eixo dos nove episódios se tornem até mais interessantes do que a narrativa principal.

E como ficar apenas criticando é uma atitude muito fácil e reativa, me arrisco a sugerir uma ideia para um futuro capítulo da linha “Uma História Star Wars” (na verdade, eu simplesmente não resisti).

Se “Rogue One” se passa imediatamente antes de “Uma Nova Esperança”, essa história ocorreria logo após “A Vingança dos Sith”. De um lado, um Darth Vader devastado por suas perdas e escolhas, totalmente atormentado e ainda lutando contra seus demônios. Seu ódio, seu ressentimento, sua obsessão por controle, seu repúdio a tudo e a si mesmo estariam em permanente conflito. Seu lado negro, já dominante, mas ainda vacilante, tentando esmagar de vez o resto de luz de sua alma culpada e perturbada.

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Do outro lado, um pequeno grupo jedi remanescente, liderado por Mestre Mace Windu. Sim, ele mesmo. Sua morte nunca foi conclusiva. Ele foi gravemente ferido e atirado janela afora, mas, sendo um dos mais poderosos jedi de todos os tempos, não poderia ter sobrevivido, ainda que com graves sequelas? Se Anakin se salvou, por que ele não?

Desfigurado por raios, dilacerado pelo sabre, sem o antebraço direito e com diversas partes do corpo reconstruídas artificialmente, Mace Windu conduziria seus ronins em busca de vingança, não de justiça. Amargurados e desiludidos, eles não pretendem mais manter ou restaurar a República, apenas matar o traidor Skywalker. Terminar o que Obi-Wan miseravelmente não concluiu.

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Vader e Windu, duas forças opostas que se atraem para a morte, nem de todo escuras ou luminosas, mas cinzas, ambas sendo ao mesmo tempo caça e caçador. Em toda a sua glória e ruína, pela primeira vez veríamos Darth Vader como protagonista do enredo, não como antagonista. E com um inimigo à altura, sedento pela desforra não apenas pessoal, mas também moral.

Disney, J.J., Lucas e companhia bela: estou à disposição para compartilhar minha visão com vocês. Basta conversar com meu agente. Que a força esteja com o meu psiquiatra!

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Sobre o Autor

Redator publicitário dos bons, cronista refinado, articulista sagaz e escritor com rara e aguçada percepção da realidade, Marcio R. Castro é, acima de tudo, modesto (ou um narcisista com sérios problemas psiquiátricos, dependendo do ponto de vista). Insiste em falar para os filhos, Clara e Heitor, que já viajou para o espaço e conheceu um alienígena chamado Sperk. Eles não acreditam.



One Response to Uma visão Star Wars

  1. Marcel says:

    Um grupo jedi remanescente liderado pelo mestre mace windu e com a Anoka a padawan poderosa e sensata de anakin Skywalker em guerras clonicas(a serie) , seria uma grande pedida;
    Outra seria o próprio saw guerrera e rebels.

    Ou então O lord vader o único personagem bem desenvolvido da saga ,mostrado em todo o seu poder e plenitude do lado negro. Já passou da hora de mostrar o vader das revistas em 2 horas e não nos fantásticos 4 minutos de rogue one

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