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Publicado em outubro 10th, 2016 | Por Marcio R. Castro

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Até o último sentido

A escuridão toma conta de Gotham como nunca antes. Quem imaginava que a cidade estava acostumada às sombras, como eu, percebe agora o quanto é possível a noite se tornar mais profunda.

Em meio ao breu absoluto, os únicos sinais de luz vêm das chamas que ardem pelas esquinas e das rajadas de tiros desgovernados aqui e ali. A balbúrdia se espalha pelas ruas, como se as trevas trouxessem à tona os instintos mais primitivos e destrutivos das pessoas. Milhares estão à solta, entre marginais e cidadãos supostamente exemplares. Saques, depredações, vinganças, estupros, execuções, violência… Jim terá muito trabalho, espero que fique bem até o sol da manhã chegar.

Os atentados que levaram a essa babel foram meticulosamente planejados. Explosões na Estação Central de Energia não deixaram pedra sobre pedra. Todas as linhas auxiliares de força, que funcionam de forma independente em casos de emergência, também foram destruídas. Locais que possuem geradores próprios tampouco escaparam. Bombas de pulso eletromagnético foram detonadas em diversos pontos da cidade, garantindo que nenhum lugar saísse ileso. Nem hospitais foram poupados. Ainda que pareça contraditório, o caos foi instaurado com método e propósito. É claro que foi o palhaço. Eu já estou em sua caça.

Tento contato com Alfred, mas lembro que o comunicador de minha máscara foi inutilizado por um dos pulsos liberados. O dispositivo de visão noturna também não funciona, o que me deixa mergulhado no escuro como qualquer pessoa.

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De beco em beco, vou abatendo delinquentes pelo caminho em busca de alguma pista que me leve a ele. Não está sendo nada produtivo, estou apenas desperdiçando tempo e energia. De repente, me deparo com alguns capangas da quadrilha do lunático. Com facas e bastões, eles partem para cima de mim como se tivessem alguma chance. Um engano que não cometerão de novo. Quebro alguns ossos e resta apenas um para enfrentar. Um sujeito forte, um desafio maior. Só por ter ficado observando enquanto os outros se lançaram incautos mostra que é mais inteligente do que os demais. Mas não o suficiente para fugir. Após um breve período de estudo, resolve me atacar. Jogo o homem através de uma vidraça, entre os manequins de uma loja de roupas depredada. Pergunto uma vez só: onde ele está, verme? O patife me indica o galpão central das docas desativadas, no velho porto da cidade.

O encontro com o bando não foi casual. É óbvio que estavam ali como isca, para me levar a uma armadilha. Eu aceito a gincana.

Não foi fácil chegar à zona portuária abandonada, mas enfim estou entre guindastes enferrujados e navios em sucatas. Vou percorrendo as edificações por cima, pulando de teto em teto. Um clarão repentino atrai minha atenção, justamente no topo do galpão principal: uma massa desforme está em chamas.

Me aproximo e identifico o que arde com espanto. Centenas de morcegos, talvez milhares, com as asas decepadas e ainda agonizando, se debatem e guincham desvairadamente ao queimar na gasolina.

A cena repugnante me faz titubear apenas por um instante, mas é o que basta para que eu seja punido. Um alçapão se abre sob meus pés e me faz despencar para dentro do armazém. A queda, de mais de vinte metros, é amenizada quando faço de minha capa uma mistura de paraquedas improvisado e asa-delta desgovernada. Mesmo assim, minha aterrisagem não é nada suave. Me espatifo no chão e meu joelho esquerdo sente o baque de imediato. Mas isso é o que menos me preocupa no momento. Me dou conta de que estou na mais completa e absoluta escuridão.

Não vejo nada há um palmo dos meus olhos. Não há réstias, nuances, vultos, sombras ou frestas, nem qualquer noção de profundidade. Tento olhar para cima, em busca de um mínimo traço de luminosidade que o alçapão possa ter deixado desenhado no ar. Não há: estou completamente cego, submerso num poço de piche.

Ao que parece, cada centímetro do local foi pintado de preto. Chão, paredes, tetos, janelas, absolutamente tudo está recoberto. Demão após demão, um trabalho incessante e obsessivo realizado por meses a fio. Pego em meu cinto uma pequena lanterna, mas lembro do pulso que a deixou inútil, assim como meu visor noturno. Não tenho uma bomba, um luminoso químico, um maldito fósforo!

Sem meus olhos, me concentro em meus outros sentidos. Se o paladar não pode ajudar nessa situação, talvez o tato possa. Me agacho e coloco as palmas das mãos no chão, em busca de alguma vibração ou coisa que o valha. Nesse instante, outro sentido entra em alerta quando uma gargalhada doentia e histérica ecoa no escuro. Em um lapso de segundo identifico sua origem e ataco com um bat-rangue (como foi batizado por Dick apenas com a intenção de zombar de mim. Como gostaria que ele ainda pudesse estar lutando ao meu lado). Ouço algo se quebrando violentamente e um resto de risada distorcida, um rumor metálico que desaparece no vazio.

Guiado pelos ouvidos, me aproximo do local do impacto e, com o tato novamente em ação, percebo alguns destroços de algo mecânico. Uma nova gargalhada ressoa e instintivamente ataco mais uma vez, para me arrepender antes mesmo de ouvir o estrondo de outro aparelho sendo destruído.

Não poderia ter caído no truque duas vezes, devia ter me dado conta do som artificial emitido pelos apetrechos. Mas não consigo pensar direito, me sinto perdido e encurralado. Vou me dando conta de que o medo está se espalhando por cada fibra do meu corpo, cada centelha da minha alma. Estou indefeso, preso num labirinto sem paredes feito apenas de trevas. A ironia, refinada e tão bem engendrada, me apavora ainda mais. Justamente eu que sempre usei a escuridão para causar terror em meus oponentes fui engolido por ela. Depois de tantos anos, sou novamente aquele garotinho aterrorizado no beco.

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Ele com certeza está aqui, assistindo meu desespero, aproveitando triunfante cada segundo. Estou à sua mercê, impotente, esperando apenas que ele resolva apertar o gatilho. Mas não vai acontecer sem que eu lute. Controlo meus nervos, ignoro meu medo e me concentro de novo em meus sentidos. Não enxergo nada, mas procuro ruídos que possam denunciar o insano, como o rumor de seus sapatos oxford roxos ao tocar o piso.

Porém, o que chega aos meus ouvidos não é algo tão comum: começo a ouvir estranhos, breves e insistentes ganidos. Seja lá o que for, vai se aproximando. Parece me rodear, à espreita. Outro grunhido soa como uma voz de comando e só tenho tempo de proteger meu pescoço quando duas criaturas saltam sobre mim, me derrubando. Seus dentes rasgam meu traje e perfuram minha carne. O alfa sente a oportunidade e também avança. São três hienas, em frenesi, famintas e exasperadas por sua presa.

Alcanço uma lâmina em minha bota e consigo enfiar na barriga de uma delas, que dá um urro lancinante de dor. Rasgo seu abdômen e o animal cai morto. As outras recuam, mas só por um segundo. No momento do novo bote, atinjo a têmpora da segunda com a faca, que se despedaça no crânio do bicho. O golpe é letal, mas não intimida a líder da matilha. Em meio a mais um ataque, ela se confunde com minha capa e, de algum modo, consigo segurar uma de suas patas traseiras para, com toda a minha força, levantar e lançar a fera contra o chão por uma, duas, três, quatro, cinco vezes.

Me afasto cambaleando das carcaças, praticamente rastejando. Estou sangrando muito, com meu braço esquerdo dilacerado e praticamente o corpo todo retalhado. Encolhido, me agacho na escuridão já sem esperanças. Penso em fazer algum tipo de jogo psicológico, provocar o psicopata, tentar de alguma forma fazê-lo se revelar. Não surtiria efeito, serviria apenas para ele saborear ainda mais a vitória. Estou inteiramente à sua mercê, não tenho como me defender.

Ofegante pela batalha com as hienas, me ocorre que ainda me sobra um último sentido. Ou melhor, uma última cartada. Levanto o rosto para o alto e inspiro profundamente. Mesmo nas trevas, fecho os olhos. Expiro e inspiro novamente, tentando aguçar o faro. Sinto o cheiro da tinta preta, espesso e nauseante. Sinto o cheiro dos animais, selvagem e rançoso. Identifico meu suor, meu sangue, tudo à minha volta parece ocre. Tudo tem o perfume da morte.

Todos os odores estão sobrepostos. Alguns são marcantes, outros quase desaparecem no ar antes de chegar às minhas narinas. Sinto algo que me intriga, um aroma tão leve e pueril que parece ser apenas fruto da minha imaginação. Tão tênue, parece algo açucarado. Viro o rosto e some por completo. Viro para o outro lado é lá está, uma débil fragrância com um quê de feminil.

Um cosmético? Uma colônia? Não, é outra coisa… É maquiagem! Abro os olhos com assombro, como se tivesse visto um fantasma. E foi mesmo um espectro branco que percebi. Isolo meus sentidos e mergulho na escuridão uma derradeira vez. Meus batimentos vão desacelerando, momento após momento – momentos que eu talvez já não tenha. Como um último suspiro às avessas, trago o ar aos meus pulmões. Não há tempo para mais nada: arremesso o bat-rangue que me resta.

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A arma atinge o rosto do palhaço em cheio. Sei disso pois ouvi o estalo de sua fronte se rompendo misturado ao barulho dos óculos noturnos sendo estraçalhados, mas também porque na hora do baque uma rajada de metralhadora clareou brevemente o ambiente. Assim, iluminado pelos flashes, pude vê-lo cair para trás bruscamente com o dedo espasmando no gatilho e ridículas pantufas coloridas enfiadas nos pés.

Sobre seu corpo, arranco com a boca minha luva direita em farrapos e peso minha mão em seu pescoço. Quero muito ir mais longe, de uma vez por todas dar um fim a tanta loucura. Mas eu me deterei, mais pela minha própria sanidade do que por algum impedimento moral.

Além do sangue que escorre de sua face desfigurada, sinto também suas lágrimas chegando aos meus dedos. O desgraçado está perplexo, incrédulo, derrotado. Ele não sabe como consegui, como o plano perfeito deu errado, como pude uma vez mais ressurgir das trevas. Só de uma coisa ele tem plena certeza no momento: eu estarei aqui sempre, até o último sentido.

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Sobre o Autor

Redator publicitário dos bons, cronista refinado, articulista sagaz e escritor com rara e aguçada percepção da realidade, Marcio R. Castro é, acima de tudo, modesto (ou um narcisista com sérios problemas psiquiátricos, dependendo do ponto de vista). Insiste em falar para os filhos, Clara e Heitor, que já viajou para o espaço e conheceu um alienígena chamado Sperk. Eles não acreditam.



One Response to Até o último sentido

  1. marcel says:

    bom…muito bom.Mas 3 hienas é demais, mesmo para o batman

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