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Publicado em março 28th, 2018 | Por Bianca Bicalho

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O retorno de Jessica Jones

Como uma das estréias mais aguardadas do mês março, a segunda temporada de Jessica Jones faz-se mais uma vez relevante no contexto contemporâneo usando como ferramenta o mundo fantasioso dos super-heróis e provocando profundas reflexões sobre as relações familiares.

Se você ainda não assistiu à primeira ou segunda temporada de Jessica Jones, eu sugiro que você não continue a ler pelo motivo simples de: spoilers. Com isso devidamente avisado, podemos prosseguir. 

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Tem sido um verdadeiro trabalho de resistência acompanhar as séries da Marvel que são produzidas pela Netflix. Digo isso como espectadora da saga desde os tempos de 2015, com a gloriosa, quase perfeita, primeira temporada de Demolidor. Talvez tenha sido mais um trabalho no qual eu mal gerenciei minhas expectativas, mas assistir Defensores e Justiçeiro até o final foi como andar com um prego fincado na planta do pé do Rio de Janeiro até São Paulo.

Porém eu sou o tipo de espectadora que releva alguns erros em nome de ver a materialização de algumas imagens. Não vou me estender mais sobre essa saga nesse post, porém eu dei toda essa volta pra dizer que estava sem esperanças quanto à segunda temporada de Jessica Jones. Mas é impossível dizer que eu não estava curiosa pra saber como a série seria interessante sem seu vilão, Kilgrave. E é exatamente nessa questão que a existência dessa temporada se sustenta.

Um dos principais focos de Jessica Jones e, consequentemente, seu diferencial, é a própria abordagem feminista como foco da série. Dito isso podemos concluir que a  segunda temporada é uma resposta à dependência da figura de Jessica para com a figura de Kilgrave. A segunda parte da jornada de nossa protagonista feminina demonstra como sua narrativa não precisa ocorrer dentro dos limites do antagonismo óbvio entre homem e mulher. O que ébem interessante de se analisar já que o feminismo não é apenas um conhecimento superficial e básico. O próprio movimento se divide em várias vertentes e funciona em camadas profundas espessas. E uma das formas que essa nova história encontra para tornar isso possível é fazer com que Jessica investigue seu próprio passado e através disso desvendar segredos que antes pareciam impossíveis e inconcebíveis.

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Depois dessa visualização macroscópica da série, podemos passar para análises mais formais as quais eu considerei que valiam a pena verificar. Como base e fio que nos leva através do acompanhamento da série, o roteiro é bem frágil e muitas vezes difícil de acreditar. O primeiro ponto de virada é difícil de acompanhar, quando o suposto colega de laboratório de Jessica invade o escritório e acaba morto na perseguição, e em vez de surpreender causa estranhamento ao espectador. E quando Jessica descobre que sua mãe ainda está viva, outro ponto importantíssimo para toda a série e o desenvolvimento da protagonista, também demora para nos conquistar e tornar-se “acreditável”. A justificativa que encontrei para prosseguir até o fim da série foi me agarrar à relação mãe-filha das personagens, que é interessante e instigante de se ver, mas certamente os roteiristas poderiam ter encontrado outras formas para que isso fosse possível e ao mesmo tempo plausível.

Os diversos núcleos da série não deixaram de compensar o centro da narrativa, nos surpreendendo e tornando a série muito mais interessante. Em matéria de dramatização não posso deixar de comentar sobre o papel de Rachel Taylor e o crescimento de seu personagem como Trish Walker. Ela desenvolve brilhantemente a personagem e personifica aos poucos a própria Felina. Essa temporada revela muito mais da personalidade problemática de Trish e como isso afeta Jessica ao mesmo tempo que trabalha sua impotência e insegurança. Além de construir a profundidade da relação entre irmãs, a série também ilumina o drama de Jerry Hogarth delicamente dando aos espectadores uma oportunidade de se aproximar muito mais dessa figura da mulher impecável, e como ela ainda frágil, pode ser poderosa.

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Entretanto uma série, filme, vídeo, não se sustenta apenas de roteiro, já que, mais uma vez repito, sou o tipo de espectadora que releva alguns erros em nome de ver a materialização de algumas imagens (esse é outro assunto para ser abordado em outro post). Por isso devemos nos ater às questões da imagem e como ela cresceu através dessas duas temporadas. Quando visitei o stand da netflix na Comic Con Experience do ano passado e tive a oportunidade de tirar uma foto no cenário da série e desconfiei que talvez algumas mudanças no escritório de Alias seriam feitas. O apartamento de Jessica durante toda a segunda temporada está em processo de acabamento e ainda carrega todo o resquício dos acontecimentos passados. Malcom, agora como novo sócio de Jessica tenta consertar o ambiente como uma forma de escape para seus próprios problemas e de certa forma também faz isso com a própria Jessica, já que ele sente uma necessidade de compensá-la. O apartamento, como metáfora para o organismo de Jessica Jones, esse que está sempre desorganizado, escuro, preenchido por tons de cinza e abastecido de bebidas alcoolicas, resume o estado da personagem principal indicando que, pelo estado inacabado da reforma, alguns assuntos talvez não tenham sido totalmente resolvidos.

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A Nova York que enxergamos através dos olhos de Jessica é aquela que insiste em estar refletida nas demais séries, Demolidor, Punho de Ferro e Luke Cage, porém esta é visualizada pela mente investigativa de Jones que está constantemente procurando por pontos focais e engrenagens que juntas completam um sentido. O roxo, azul e cinza são as cores que predominam na dramatização e que destacam os momentos épicos da série. O figurino dela também é explicado e valorizado num dos episódios mais importantes da série e torna-se simbólico, uma vez que se resgatarmos seu passado e verificarmos a existência de seu traje de super-heróina podemos analisar a existência de duas Jessicas, entretanto, e muito devido ao seu próprio passado, a permanência, ou o triunfo, de apenas uma.

Esses aspectos que permaneceram homogêneos através das duas temporadas continuam formando a linguagem e o nome de Jessica Jones. Considerando que Jessica Jones foi concretizada apenas uma vez no formato audiovisual através da Netflix e de que essa mídia é a que atualmente mais demarca a memória afetiva das pessoas, podemos concluir que a sua construção foi bem feita e satisfatória. A imagem de Krysten Rigger será sempre vinculada à essa personagem que é permeada por camadas e complexidades psicológicas e representará a voz de muitas mulheres.

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Assistir à essa segunda temporada será mais um trabalho de resistência dos espectadores e admiradores dessa heroína deslocada, porém dará a possibilidade de estender e expandir essa pequena realidade do universo marvel e, ao mesmo tempo, se estabilizar  na tentativa de dar voz às narrativas marginais do mesmo universo.


Sobre o Autor

Historiadora da arte em formação pela Universidade Federal de São Paulo, formada em Cinema/Tv pelo Centro Audiovisual de São Bernardo, estudante de desenho pela Quanta Academia de Artes, viciada em astrologia e bolinho de chuva. @dramaticqueenya em todas as redes sociais.



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