Seriados fernando

Publicado em maio 21st, 2018 | Por Bianca Bicalho

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3% e a ficção científica brasileira

Lançada em 2016, 3% se popularizou internacionalmente através de uma jogada ousada: fazer ficção científica em padrões tupiniquins. Com o lançamento recente da segunda temporada veremos nesse post se vale a pena dar valor à produção, essa que ocorreu em parceria com a Netflix, e também se esse projeto atingiu o sucesso que esperávamos.

joana

A segunda temporada estreou em 27 de Abril desse ano e nos prometeu devolver a tensão, as experiências e o drama que acompanhamos durante o Processo na primeira temporada. A partir daqui analisarei alguns pontos da série de forma explícita então esteja avisado(a) sobre spoilers!

A narrativa

fundadores

Os personagens Michele, Rafael, Fernando e Joana, esses que foram separados na conclusão do ano anterior, retornam a fim de continuar lutando contra aquilo que os dividem. Somos introduzidos a novos rostos, como o de Marcela, André e Sila assim como conseguimos adentrar, finalmente, à realidade do Maralto. A série aborda de forma interessante esse novo mundo uma vez que retorna às origens do que seria o projeto desse lugar, revelando logo a contradição da existência de um trio fundador, em vez de um casal, como é acreditado no presente em que os personagens vivem.

maralto

Em termos de roteiro, a primeira crítica se instala aqui, uma vez que, na tentativa de criar uma desconfiança no espectador, suspendendo a trama, ele, consequentemente revela o final e torna-se previsível. A segunda temporada falha muito mais do que a primeira nessas questões e revela-se ao longo de seus dez capítulos, ser apenas uma extensão sem objetivos concretos daquilo que conseguimos apalpar na primeira. O que acompanhamos dessa vez, não é o andamento do Processo, mas a tentativa de fazer com ele não aconteça. Para isso, os momentos da série existem sempre através da contagem de quantos dias falta para o evento. Outro recurso que é utilizado e que seria muito bom para desenvolvimento da narrativa se não tivesse sido explorado de forma incansável, é o flashback. Além disso as datações que entram e saem quase em todos os capítulos. Ambos poderiam ser muito bem-vindos se não tivessem atrapalhado o contar da história ao invés de ajudar. Creio que se eles tivessem investido um pouco mais de tempo pensando nas transições, não haveria motivo para as datações, podemos verificar essa técnica muito bem na série The Rain, outra estréia da Netflix.

ezequiel

Excluir Ezequiel da trama foi um dos maiores erros e algo que me fez querer abandonar a série. Na minha visão, ele era o personagem principal e o que melhor foi bem construído ao longo das duas temporadas. Seus motivos, atitudes e discurso eram tão interessantes que ele era mais do que um anti-herói. Ele era um ser humano. Esse que é passível de manipulação, de pena, de erros e falhas, assim como todos somos. A segunda temporada ainda investe um episódio inteiro construindo e consturando seu passado ao presente, tudo isso em busca de revoltar o espectador? Tirar esse personagem foi um movimento arriscado que não provocou surpresa no espectador, assim como o temos no retorno de Marco, mas indignação.

A atuação

michele

De todo o esforço que tive que fazer para acompanhar essa série, ignorar a barreira das atuações foi a que mais me deu trabalho. Durante a primeira temporada, era mais fácil de acreditar nos personagens e eu não me incomodei tanto com isso, mas agora fica muito mais saliente que eu não consigo entrar completamente na série uma vez que não consigo acreditar nas palavras de Michele e Rafael. Ambos são vertentes muito importantes para a trama da série e prejudicaram uma grande parte da experiência da segunda temporada. A atuação de Bianca Comparato e Rodolfo Valente me tiravam da ilusão da série a todo momento. A questão é que muito do que temos como boa referência dessa área provém de novelas e talvez essas questões passem desapercebido pelo espectador regular. Além deles, outros coadjuvantes como Cássia (Luciana Paes) e André (Bruno Fagundes) também quebraram a ficção inúmeras vezes. Podemos salvar a série com Fernando (Michel Gomes) e Joana (Veneza Oliveira), esses que salvaram a minha experiência e deveriam receber prêmios de atores/atriz revelação já que fizeram muito bem o serviço de manter e segurar a ficção, além de interpretarem muito bem seus papéis.

O visual

fernando 2

A primeira coisa que percebemos no começo da segunda temporada é o uso de mais efeitos visuais, um recurso que necessário para simular a alta tecnologia do Maralto. Percebemos que esse foi bem feito e causa até um espantamento. É incomum o uso desses efeitos nas produções brasileiras e em termos de ficção científica podemos e devemos ficar orgulhosos. É um fato de que o cinema brasileiro é o que menos investe em narrativas Sci-Fi uma vez que os recursos são raros. Em produções mais caras como as da Globo é possível ver que esse investimento é mais utilizado na composição de paisagens do que na criação de aparatos tecnológicos. Podemos concluir que ao investir em uma área, eles teriam que economizar em outra. Ouvi muita gente reclamar dos figurinos da primeira temporada, mas eu não avaliei da mesma forma, os vi como bastante ousados e originais. Os cenários continuam bastante condizentes, o Maralto como um paraíso tecnológico na terra, onde ser humano, natureza e máquina se complementam, com seus lagos, árvores tropicais e comida abundantes, simulando um futuro próximo e apolíptico para aqueles que vivem no Continente, esse que funciona em prol de um vento anual e que resiste na falta de tudo, comida, casa, conhecimento, onde tudo é sujo e desgastado, sucateado, numa versão ciberpunk brasileira.

O futuro

liniker

Ainda concordo que 3% é um projeto muito ousado e original pelo qual temos que nos orgulhar. Essa é a série brasileira mais assistida no exterior e ela emula muito daquilo que é ser brasileiro, não somente na essência, mas no contemporâneo. Um dos maiores dilemas que os personagens na série tem de enfrentar é o fato de que eles tem que escolher um lado. E isso corresponde ao que estamos vivendo aqui e agora. Um dos maiores poderes da ficção científica é o poder de transformar a realidade numa metáfora, essa que se aproxima tanto de sua origem, que acaba causa sensação de emergência naqueles que podem absorver essa visão. Não sabemos ainda se a série será atualizada para uma terceira temporada mas o que já sabemos é que é possível fazer ficção científica no Brasil. Mesmo que 3% não seja perfeita podemos abraçar essa inspiração e, a partir dela, fazer melhor.

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Sobre o Autor

Historiadora da arte em formação pela Universidade Federal de São Paulo, formada em Cinema/Tv pelo Centro Audiovisual de São Bernardo, estudante de desenho pela Quanta Academia de Artes, viciada em astrologia e bolinho de chuva. @dramaticqueenya em todas as redes sociais.



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