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Publicado em fevereiro 16th, 2016 | Por Lara Costa

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The 100 – a série de sci-fi pela qual estivemos esperando

The 100 é uma série de TV que começou com uma premissa clássica em histórias de sci-fi: um futuro onde a humanidade foi obrigada a deixar a Terra por tê-la tornado um lugar inabitável em decorrência de seu belicismo e ambição descontrolados. Com um elenco jovem majoritariamente desconhecido, e sem grandes pretensões, a série teve uma temporada inicial interessante, mas um pouco morna. Dois anos mais tarde, no entanto, é possível afirmar que The 100 já é uma das melhores séries do gênero dos últimos anos.

Tendo se distanciado de maneira definitiva de seu material original (uma trilogia de livros cujos títulos são The 100, Day 21, e Homecoming), a liberdade criativa dos roteiristas direcionaram o programa para um nível de excelência quase sempre estável. Este texto é uma tentativa de compreender as transformações acontecidas na série ao longo destas três temporadas, e de contemplar os acertos que a elevaram a este patamar.

Lição número 1: Conheça o seu material

Um dos motivos pelos quais The 100 tem se tornado uma série tão querida, é que seus roteiristas evidentemente tem vasto conhecimento de literatura de ficção científica, dominam tudo o que foi produzido na TV e no cinema com este tema, e souberam se servir desses elementos sem cair na armadilha de confundir reverência e referência com plágio e clichês.

Nesse sentido, a inspiração mais evidente de The 100 é a melhor série de TV já feita na opinião de muitos especialistas (e aqui não estamos falando apenas de séries de ficção): Battlestar Galactica (BSG). As cinco temporadas desta série são provavelmente uma das melhores coisas já escritas em qualquer mídia. As aproximações com The 100 são inevitáveis porque esta última tem uma construção de narrativa que parte de um núcleo duro de ficção que flerta gradualmente com temas místicos e espirituais sem jamais deixar o espectador com a impressão de que os elementos metafísicos estão ali como recurso barato, como acontecia com alguma frequencia em Lost – outra série a qual The 100 também presta homenagem.

 

Lição número 2: “Talvez não existam mocinhos”

Esta frase, dita por uma personagem ao final da segunda temporada da série, resume bem um dos pontos altos de The 100: a qualidade da construção dos personagens. Na minha opinião, BSG também tinha essa característica de construir personagens com potencial para ser heroicos ou monstruosos sem jamais parecer inconsistentes. A inclinação “boa” ou “má” das pessoas que estão tendo suas histórias contadas ali não garante que elas tomarão decisões óbvias, tornando o programa uma experiência surpreendente para os espectadores, e fazendo com que estes consigam se enxergar tanto nas fraquezas como nos momentos de superação das personagens. Evidentemente, no entanto, isso não funcionaria tão bem sem o grande carisma do elenco.

Quando os “mocinhos” são capazes de atrocidades que deixariam qualquer vilão surpreendido, você tem a certeza de que está diante de uma narrativa densa e humanizada. Ponto para os roteiristas que depois de mais de trinta episódios ainda são capazes de nos deixar confusos e ansiosos para saber os rumos que a história vai tomar.

 

Lição número 3: Morte aos estereótipos de gênero

A única série de ficção da atualidade que tem tanto sucesso em desconstruir estereótipos de gênero como The 100 tem feito é Orphan Black. Esqueça tudo que você leu e assistiu ao longo de toda sua vida sobre homens e mulheres e sobre os papéis designados aos sexos. Em The 100, como em BSG, as personagens femininas são tão fortes (psíquica e fisicamente), independentes, inteligentes quanto suas contrapartes masculinas. Bem. Na verdade… Elas são muito melhores que eles em todos esses quesitos.

Este aspecto é um dos principais pontos da série porque traz um elenco racial e sexualmente diverso e que não está ali apenas para “contabilizar” e orbitar tramas protagonizadas por homens. Estas personagens estão ali para virar a trama de ponta a cabeça, para impactar o plot diretamente, e para demonstrar que há uma demanda por diversificação na TV e cinema que há muito já devia ter sido resolvida.

É evidente que há personagens masculinos igualmente densos e interessantes, o diferencial é que eles não estão ali para salvar o dia ou para serem o centro da narrativa.  Ótimo. Afinal de contas, histórias protagonizadas por homens brancos são praticamente todas as histórias já contadas, e os espectadores já não toleram tão bem esta repetitividade.

 

Lição número 4: Respeite os temas clássicos

Se você quer escrever uma história excepcional, o segredo nunca foi encontrar uma fórmula nova, mas usar com qualidade os arquétipos e grandes narrativas com as quais a humanidade sempre foi fascinada. Não há nada de novo nesta constatação, é claro: o antropólogo Joseph Campbell já dizia isso décadas atrás, e com toda a razão. Deste modo, The 100 também tem sucesso em dar uma nova cara aos grandes temas mitológicos incrustados na nossa psique: o enfrentamento com o “outro”, o conflito entre gerações, vingança, loucura, ambição, o constante receio de sermos superados enquanto espécie, e o difícil enfrentamento dos homens com sua inescapável mortalidade, apenas para citar alguns.

A terceira temporada tem dado indícios de que aprofundará todos estes – e novos temas – ao longo deste ano. O que nos resta é aguardar e torcer para que a CW continue levando a série na direção certa e garanta um final que lhe permita figurar entre os grandes clássicos de sci-fi da TV.


Sobre o Autor

Nerd em tempo integral e doutoranda em Antropologia nas horas vagas. Ensaia discursos de agradecimento no chuveiro para quando receber um Oscar de melhor roteiro, Eisner de melhor HQ ou um World Fantasy Award de livro do ano.



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