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Publicado em maio 31st, 2016 | Por Marcio R. Castro

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Lorde Banana

Baseados em seres humanos e figuras históricas reais, emprestados da literatura ou criados diretamente para as telonas, vilões dos mais variados tipos vêm aterrorizando plateias pelo mundo desde que os irmãos Lumière começaram a nova brincadeira. Para nosso horror e deleite, os infames passaram a roubar a cena de imediato.

Não faltam rankings por aí listando os mais “mais” entre as vis criaturas. O canibal Hannibal Lecter construído por Anthony Hopkins, o perturbado e perturbador Norman Bates vivido por Anthony Perkins, o computador com distúrbios psiquiátricos Hal 9000, o arrebatedor Coringa de Heath Ledger, além de Amon Goeth, Drácula, Ernst Stavro Blofeld, Bruxa Má do Oeste e, claro, o icônico Darth Vader – mesmo com o esforço colossal de George Lucas, em sua segunda trilogia, para transformá-lo no maior panaca das galáxias – são invariavelmente lembrados. Sempre presente entre os mais emblemáticos, um deles realmente não merece o status que tem: Lorde Voldemort.

É certo que a trama de fantasia criada por J. K. Rowling é cheia de elementos interessantes, desenlaces inventivos, enredo cativante e personagens bem desenvolvidos, que vão ganhando profundidade ao longo da série. Tudo isso não está em questão. Porém, é evidente também que as escolhas da autora e a condução que ela dá à história – seguida sem qualquer mudança relevante na adaptação cinematográfica – simplesmente impedem Voldemort de estar no hall dos maiores. Ainda mais porque o sujeito figura na categoria dos megalomaníacos, que almejam nada menos do que a dominação global. Para não cair no ridículo, seus feitos devem acompanhar seus intentos. Será que Tom Riddle segura essa bronca?

No primeiro levante promovido pelo autointitulado senhor das trevas, os planos se frustram precocemente. E pior: o camarada é derrotado por um bebê. “Ah, mas não foi um bebê, foi um encanto ancestral de amor conjurado pela mãe da criança”, dirá esbravejando meu amigo Matheus Ruiz.

A justificativa só piora a situação do cara de cobra. A escritora escolheu um caminho tocante, de forte apelo dramático, que intensifica a relação de Harry com a mãe que nunca pode ter. Uma opção bem pensada para esse propósito, mas que sem dúvida tira poder do antagonista. Não dá para um vilão que se preze ser vencido pelo amor da mamãe.

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O poderoso algoz de Lorde Voldemort

 

Meia dúzia de bruxos mortos, outros tantos presos, e a revolta mingua rapidamente. E olha que a pretensão do valente era subjugar o mundo todo. Na hierarquia da vilania, está mais para bandido da luz vermelha do que para Genghis Khan.

Após anos e anos se recompondo da derrota humilhante, Voldemort reúne forças para sua segunda insurreição. Arregimenta seguidores, realiza atentados aqui e ali, obtém posições de controle no Ministério da Magia.

Quando parte para o primeiro ataque em massa, a guerra de verdade, escolhe Hogwarts como o grande palco. Saldo da iniciativa: tanto ele quanto seus planos viram cinzas logo no ato de abertura. Hitler dominou meia Europa e dizimou milhões em sua insanidade. Stalin instaurou o terror como método e tiranizou gerações. Voldemort não conseguiu tomar uma escola.

Comparo com personagens de carne e osso porque, neste grupo composto por megalômanos com muitos parafusos a menos, nada supera alguns facínoras bem reais que a humanidade foi capaz de produzir. Mas para não deixar nenhuma ponta solta, faço outro paralelo com gosto. Darth Vader espalhou o medo pelos confins do espaço. Sauron e Saruman devastaram reinos e mais reinos da Terra Média. Voldemort não conseguiu tomar uma escola.

Sem contar que as duas malfadadas tentativas do camarada ficam caracterizadas como pequenos motins locais, muito distantes de algo com proporções mundiais. Em momento nenhum mencionam-se nos filmes, por exemplo, a tomada das terras mágicas dos Cárpatos, o domínio dos povos bruxos dos Andes ou a conquista das províncias necromânticas do extremo oriente. Além de ter sofrido fracassos um tanto patéticos, está claro também que falta escala para um vilão que se pretendia soberano de tudo e de todos.

Fica então uma última constatação. Sabe toda aquela história de “você sabe quem” e “aquele que não deve ser nomeado”? Pelo visto, não era medo. Era vergonha.

 


Sobre o Autor

Redator publicitário dos bons, cronista refinado, articulista sagaz e escritor com rara e aguçada percepção da realidade, Marcio R. Castro é, acima de tudo, modesto (ou um narcisista com sérios problemas psiquiátricos, dependendo do ponto de vista). Insiste em falar para os filhos, Clara e Heitor, que já viajou para o espaço e conheceu um alienígena chamado Sperk. Eles não acreditam.



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